Últimas Notícias
Capa / Artigos / Comitê de Tecnologia do SUS condena pacientes à boca seca
Comitê de Tecnologia do SUS condena pacientes à boca seca

Comitê de Tecnologia do SUS condena pacientes à boca seca

“y tragó un saliva espesa y salada de lágrimas”
                                                                Gabriel Garcia Márq

A saliva, apesar de passar despercebida a maior parte do tempo, é tão presente e importante, que sua ausência pode transformar a vida de uma pessoa. Ela hidrata e protege nossa mucosa oral, faz a digestão parcial dos alimentos e também tem função de manter o equilíbrio no pH bucal e assim diminuir a ocorrência de cáries. Além disso o hipofluxo salivar (diminuição da saliva) pode ser um verdadeiro suplício para algumas pessoas devido a suas implicações em relação a sensação de boca seca ou xerostomia. As glândulas salivares maiores, ou parótidas, são responsáveis por grande parte do fluxo salivar da nossa boca, por isso é dada atenção especial a elas quando o assunto é radioterapia em região cervico-facial.

Desde que foi iniciado o tratamento com radiação ionizante em pacientes com tumor de cabeça e pescoço, percebeu-se que apesar de todos os efeitos agudos do tratamento, havia normalização destes sintomas em alguns meses, entretanto o mesmo não ocorria com a saliva. Estudos posteriores mostraram que as glândulas parótidas eram muito sensíveis a radiação, e não toleravam a dose de radioterapia necessária para cura do tumor.

O tratamento evoluiu com utilização de tomografia no planejamento terapêutico dos pacientes, e com isto as estruturas podiam ser visualizadas e delineadas. Foram desenvolvidos algoritmos para avaliar a toxicidade da radioterapia de acordo com a dose recebida pelos órgãos ao lado do tumor, mas ainda não era possível proteger adequadamente estruturas que estivessem na região.
No início da década de 1990 houve a introdução da técnica de modulação do feixe de radioterapia ou simplesmente IMRT (do inglês Intensity Modulated Radiotherapy). Com esse avanço foi possível dar o passo que tanto era aguardado, tratar o tumor de maneira adequada, mas diminuir a dose nos tecidos normais a ponto de minimizar ao máximo possíveis toxicidades.

Devido aos potenciais benefícios da técnica houve rápida expansão de sua utilização e foram realizados trabalhos científicos de impacto na literatura mundial. Hoje o tratamento com IMRT para tumores de cabeça e pescoço representa um avanço comprovado na diminuição da xerostomia, e os relatos de sensação de areia na boca, saliva espessa, boca seca e múltiplas cáries rarearam.

Só que não é bem assim (pelo menos no país em que vivemos).

Mesmo com literatura robusta sobre o tema, o Sistema Único Saúde ainda realiza o tratamento destes pacientes sem ao menos uma tomografia. Estranhamente a Agência Nacional de Saúde (que regula convênios médicos e também ligada ao governo) já obriga o emprego desta tecnologia para os pacientes com tumor de cabeça e pescoço. A técnica IMRT foi até realizada por um ex-Presidente da República, em ocasião de tratamento na região cervico-facial.

Infelizmente a CONITEC (Comissão de Incorporação de Tecnologia do SUS) acredita que a saliva dos pacientes tratados no Sistema “Único” de Saúde não é importante.
Em contra-ponto aos robustos trabalhos que mostram claramente os benefícios da técnica IMRT para diminuição da dose nas parótidas, o pretenso comitê científico, embasa sua negativa em estudos com baixo nível de evidência científica, e ignora as existentes a favor da técnica.
Não é aceitável o parecer técnico desta entidade, bem como não é razoável pedir uma consulta pública à especialistas, se a forte evidência em IMRT para cabeça e pescoço não foi considerada adequada anteriormente.

Como uma entidade que se diz representar avanços no SUS é contrária a incorporação de tecnologia, que já é obrigatória aos convênios médicos? INACREDITÁVEL.

imrt3

 

 

Imagem de capa disponível em: http://www.cancernetwork.com/articles/imrt-spares-salivary-function-head-neck-cancer-patients

370 Visualizações 1 Visualizações Hoje

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Required fields are marked *

*