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Fosfoetanolamina: Não é só pelos 10 centavos

Fosfoetanolamina: Não é só pelos 10 centavos

A medicina evoluiu muito nos últimos anos, com tratamentos que aumentaram a expectativa e qualidade de vida dos pacientes com câncer. Hoje grande parte dos pacientes oncológicos é curada. Apesar disso ainda temos muito trabalho pela frente, principalmente com os pacientes que não foram curados na primeira tentativa de tratamento.
Devido a esse motivo os profissionais que trabalham com oncologia têm recebido várias perguntas sobre o composto fosfoetanolamina, produzido na USP-São Carlos, com potencial anti-cancerígeno. Pelo fato da substância poder ser agente contra o câncer, houve uma comoção nacional após o Tribunal de Justiça de São Paulo derrubar as liminares que obrigavam o Instituto de Química da USP a fornecê-lo à doentes que haviam conseguido adquirí-lo judicialmente. Vou pontuar algumas questões importantes para que possamos chegar a uma conclusão sobre o composto.

A fosfoetanolamina é uma substância produzida pelo próprio corpo humano e que pode ser considerada um agente antitumoral, pois diminui a proliferação celular e estimula apoptose (morte celular programada).
Estudos com a substância foram iniciados nos anos 90, no Instituto de Química da USP de São Carlos, pelo professor (hoje aposentado) Gilberto Orivaldo Chierice. Segundo o professor, o composto funcionaria como um marcador tumoral, deixando as células neoplásicas mais visíveis para que o sistema imune as reconheça. Existem atualmente alguns estudos que sugerem resultados positivos contra o câncer após sua utilização em animais. Também existem relatos de aproximadamente 800 pessoas tratadas com a droga com resultados positivos.
Apesar do professor Gilberto em entrevista recente relatar que já tenta há vários anos a “liberação” da substância pelos órgãos competentes, é preciso lembrar que não foram realizados os requisitos básicos para que uma droga seja avaliada pela ANVISA.

A fosfoetanolamida não passou por estudos para sua liberação como medicamento, pois é necessária a administração da substância em alguns tipos de animais e depois em humanos. Nessa etapa seriam avaliados tolerância, efeitos colaterais, interações medicamentosas e dose para tratamento. Após esses estudos, deve-se realizar outros (última etapa ou fase III), com número maior de pacientes, em que será avaliada a eficácia da droga ou até mesmo se ela é prejudicial em algum contexto clínico.

Lembrarei sobre a Talidomida, que em sua descoberta, parecia ser inofensiva após testes em ratos, que metabolizavam a droga de maneira diferente dos humanos, e foi distribuída a milhares de mulheres grávidas, causando graves defeitos na formação fetal.

Dentre os pacientes que recebem as pílulas, temos desde alguns com tumores agressivos e metastáticos até outros com tumores indolentes e localizados, o que compromete qualquer avaliação de quem está utilizando a substância hoje. O fato da justiça ter sido favorável às liminares que requerem a fosfoetanolamida é temerário, pois esses pacientes estão utilizando uma droga que não tem os pré-requisitos básicos para ser considerada medicação, o que pode até ser prejudicial para alguns deles.

Outro argumento que remete muito mais a emoção do que a razão é uma articulação da indústria farmacêutica, que não teria interesse em vender a droga pois ela somente custa 10 centavos e “cura o câncer”. Isso é inverídico, primeiro porque a produção em larga escala de uma medicação com esse potencial de “cura do câncer” seria o sonho para qualquer laboratório farmacêutico, e além disso existem muitos tipos de câncer e é virtualmente impossível existir uma medicação que cure todos eles ao mesmo tempo, com a mesma dose.

A Fosfoetanolamina pode trazer benefícios (e todos nós queremos isso) porém há riscos imensos que são omitidos ou minimizados devido a comoção que a palavra câncer causa nas pessoas. Somente após estudos em humanos poderemos saber. Infelizmente devemos esperar os resultados de trabalhos para emitir parecer científico sobre esta substância, e no momento não se pode recomendar o uso.

O que deve-se fazer é acelerar os estudos sobre a substância, caminho mais seguro para a liberação dela como medicação.

paulo

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